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CRÍTICA LITERÁRIA: POETA POPULAR x POETA DE “ELITE”

Parece que o marxismo mal interpretado, falido e extemporâneo veio morar na concepção de poesia. Há uma uma dicotomia marxista e classista: o poeta popular X poeta de “elite”.

Na visão obtusa de alguns, o poeta popular é aquele que escreve com o “sentimento” ou que busca, em sua vida sofrida, “inspiração” para a composição poética. Geralmente esse, dito poeta popular, faz edições caseiras de seus livros, geralmente em gráficas e não em editoras com ISBN, etc. Ele também pega ônibus, não tem ensino superior ( não confundamos Ensino Superior com graduação ou pós-graduação. Conheço doutores sem Ensino Superior) e se reúne em associações de pares para que sua voz seja ouvida, junto à voz de uma massa massante de pessoas “sofridas” como ele. São os “coitadinhos” que escrevem. Lembremo- nos de que a palavra coitado significa aquele que recebeu o coito. Em outras palavras, o ferrado.

Do outro lado, segundo esses classistas maniqueístas, há o poeta de elite. O poeta de elite produz edições luxuosas em editoras, com ISBN, paga a edição com recurso próprio, incentivo cultural ou é engolido por alguma mega editora. Esse poeta de “elite” não vive da venda de seus livros. Escreve por hobby. Os classistas “coitadinhos” atacam os classistas de “elite” que bebem champagnes em suas sacadas gourmet. Os poetas de elite têm desprezo pelos “coitadinhos”e são culpados pelos poetas que se autodenominam populares por terem cursado uma universidade e por gostarem de livros bem produzidos.

Reparem que até aí falamos de casca. O livro é uma casca. E o texto? O que falar do texto? É justamente o texto que acaba com o classismo maniqueísta imposto por alguns “coitadinhos” e alguns “champagnistas” de sacada gourmet.

Não existe essa bobagem de poeta popular ou poeta de elite. O que existe é o bom poeta e o mau poeta. Aquele que por intuição ou técnica sabe desenvolver um verso e aquele que acha que o verso é uma versão de um dramalhão pessoal – o “Adolescentismo”, como mencionei em um artigo anterior.

Cabe ao crítico literário que não é “coitadinho” nem de “elite” separar o joio do trigo. Queiram ou não os “adolescentistas” ou a velha oligarquia cultural, o que existe é boa poesia e a má poesia e é o olhar crítico, é o desnudar técnico que vai diferenciar trabalho, de pirralho.

Nas palavras de Adorno:

Uma corrente subterrânea coletiva é o fundamento de toda lírica individual. Se esta visa efetivamente o todo e não meramente uma parte do privilégio, refinamento e delicadeza daquele que pode se dar ao luxo de ser delicado, então a substancialidade da lírica individual deriva essencialmente de sua participação nessa corrente subterrânea coletiva, pois somente ela faz, da linguagem o meio em que o sujeito se torna mais do que apenas sujeito (Adorno, 2003, p. 77)

Sendo assim, o refinamento e a delicadeza da produção literária brotam de uma mesma corrente subterrânea que é comum a todos: a linguagem. Ora, se a linguagem é comum a todos, todos os que souberem talhar a delicadeza áurea de um verso e souberem ter um olhar refinado para o constructo poético podem, com esforço e engenharia, escrever poesia.

Por isso é uma tremenda bobagem falar em poeta popular X poeta de elite. Paulo Leminski, ao que me consta, era popular, nem por isso pobre no verso. Mário Quintana era popular, nem por isso pobre no verso. Mário de Andrade era da elite paulistana, nem por isso era pobre no verso.

O que existe é o bom poema e o poema ruim e cabe ao olhar crítico, delicado, refinado e não maniqueísta separar um do outro, sem medo de ofender esse ou aquele poeta, porque o que está sendo avaliado sempre é o poema e nunca o poeta.

Se nos deixarmos levar pelo papo fácil dos “coitadinhos” precisaremos criar um sistema de cotas para poetas populares. Por outro lado, se nos deixarmos seduzir pelo topete oligárquico dos “champagnistas”, precisaremos criar um Olimpo para seus egos cegos.

Podem espernear “coitadinhos” e “champagnistas”, mas a crítica séria não olha bolso, formação acadêmica, capa de livro ou barulho. O olhar da critica está voltado para o verso, seja ele de quem for. Por isso cuidado ao versar. Seu verso moderno ou paleolítico pode ser “coitado” pelo olhar do leitor crítico.

Professor Robson Lima

ADORNO, Theodor (2003). “Palestra sobre lírica e sociedade”, Notas de literatura I. Trad. Jorge de Almeida. São
Paulo: Duas Cidades; Ed. 34.