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“A VIDA É SUA, ESTRAGUE-A COMO QUISER!”

A palavra provocação deriva do latim (provocatio), correlata de provocare e significa “desafiar”. A palavra é formada por “pro” – à frente + “vocare” – chamar. Sendo assim, provocar é chamar alguém ou algo à nossa frente, encarar, desafiar.

A vida é a nossa maior provocadora. Ela sempre nos chama à frente e nos desafia, nos encara e pergunta: o que é a vida, oh vivente? As respostas são variadas, das mais vulgares às mais brilhantes e filosóficas, porém a vida é a mesma, no mesmo tempo, para todos. Uma ampulheta ambulo que nos empurra a todos rumo ao fim da seringa, coringa da vida.

O tijolo pergunta ao pedreiro: o que é a vida? E o pedreiro, assentando cada tijolo, responde que a vida é construção.

O som pergunta ao maestro: o que é a vida? O maestro, lendo a partitura, responde que a vida é música.

A cena pergunta ao ator: o que é a vida? E o ator, cheio de talco, responde que a vida é o palco.

A madeira pergunta ao escultor: o que é a vida? E o escultor, suado de remover, responde que a vida é uma forma de viver.

A poesia pergunta ao poeta: o que é a vida? E o poeta responde que a vida é o terror diante de uma página em branco, mesmo que seja um guardanapo de papel um bar qualquer. A página em branco é a maior provocadora de um poeta.

Sim, a vida nos provoca… Ai de mim, ai de mim se eu não for provocado, chamado a desafiar a vida e colocar-me à frente dela! A vida despreza quem não a provoca. Lembremo-nos de Prometeu – do grego Προμηθεύς – aquele que antevê – ele enfrentou Zeus e trouxe o fogo aos homens. Fiat Lux! O castigo do provocador Prometeu foi árduo, mas ele anteviu que a sua provocação seria eterna.

Antônio Abujamra era um provocador. Provocou no teatro, no cinema, nas novelas, nas suas interpretações de belos textos e ácidos poemas. Antônio provocava a monótona televisão brasileira. Provocava os mornos programas de entrevistas como o de Jô Soares.

Abujamra era mestre em provocações. Mestre em desconcertos. Mestre. Há uma frase libertadora e provocativa que ele dizia a seu filho André, desde pequeno, e a muitos de seus entrevistados: “A vida é sua, estrague-a como quiser!” Essa frase é de uma liberdade tão pungente que nos remete imediatamente à responsabilidade. Em outras palavras, sou tão livre que preciso cuidar de mim para que eu não me estrague.

Esta frase de eloquente autonomia deveria ser talhada diante de todas as escolas. Cada aluno que adentrasse os portões de uma escola, seria obrigado a ler: “A vida é sua, estrague-a como quiser!”. Quem sabe, assim, os jovens ouvissem mais seus mestres para que, cheios de liberdade, descobrissem, no conhecimento, os seus limites, de modo a não estragarem a sua vida por completo.

Ah, Antônio Abujamra, seu ateu miserável! Aposto que, agora, você deve estar cercado por anjinhos com cítaras dissonantes e asinhas emplumadas, todos lhe provocando eternamente com a pergunta Prometeu: “Antônio, o que é a vida?”.

Minha homenagem a um grande provocador, um grande homem e intelectual que dedicou sua vida a descobrir, por meio da arte e da filosofia, em que consistia a vida.

Presenteio meus leitores com um trecho emocionante no qual o provocador Antônio Abujamra convida seu filho André Abujamra para provocá-lo. Não deixem de ouvir o poema de Manuel de Barros, declamado por Antônio Abujamra ao final do vídeo. Encaixe perfeito!

Aproveito para provocar vocês, meus leitores: considerando tudo o que você viveu até hoje, para você, o que é a vida? Podem escrever em forma de comentário embaixo da postagem.

Um abraço!

Provocador e Professor Robson Lima