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UM MUNDO SEM UMBERTO ECO

Demorei muito para começar a redigir este artigo… Antes, precisei me acostumar com a ideia de viver em um mundo sem Umberto Eco. Em um mundo sem a sua lucidez impávida e sua ironia fina.

Umberto Eco não era o autor do romance “O nome da rosa”. Eco era uma primavera inteira. Ele também não foi o autor do romance “O Pêndulo de Foucault”. Eco era todo o movimento pendular, considerando todo o atrito e a gravidade deste movimento. Tampouco era, Umberto, o autor do recém-lançado romance “O número Zero”. Eco era o próprio zero fora da curva na linha do tempo e da literatura.

Sua “Obra aberta” ao mundo do que não se vê ou do que se vê, mas não se quer ver, nos colocava em cheque com nossa consciência do existir. Sua vida era um “Diário mínimo” cheio de máximas marcantes e instigantes. Um homem que unia “Apocalípticos e Integrados” de forma brilhante e, ao mesmo tempo, inquietante, dessa inquietude que nos quita com a mesmice.

“A definição de arte” nunca mais foi a mesma, pois “A estrutura ausente” tornou-se viva e presente, revelando “As formas do conteúdo”. Umberto desmistificou “Mentiras que parecem verdades”, assim como “O super-homem de massa”.

Como um “Lector in fábula”, fabuloso, Eco fez “Uma viagem na irrealidade cotidiana” provando o improvável e experimentando o que não se pode tocar. Em um contra-ataque à mediocridade versou sobre “O conceito de texto” como se versasse sobre a “Semiótica e a filosofia da linguagem” que nunca mais foi a mesma.

“Sobre o espelho e outros ensaios” Umberto ensaiava sua sinfonia de percepções solitárias e nos tirava da solidão do sentido e do existir. Seu olhar sobre a “Arte e beleza na estética medieval” não o impediu de advertir o mundo sobre “Os limites da interpretação”, deixando atônitos tolos que, cegos, tropeçavam em suas próprias tolices para além da margem da leitura.

Com seu olhar sempre lúcido lançado sobre uma realidade translúcida Eco vislumbrou “O signo de três” e, como nada mais coubesse em seu velho diário de mínimas sempre máximas, Umberto inaugura um “Segundo diário mínimo” como se fosse música e música de formas, cores, palavras e sons.

O destino de meu artigo sobre um mundo sem Umberto Eco, publicado na internet, em uma rede social, é a minha experiência sobre a experimentação da ironia fina deste linguista arguto, quando, em uma entrevista dada ao jornal La Stampa, ele afirmou: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis” .

Sim, Eco tinha aversão à imbecilidade e aos imbecis. Temido, amado e odiado por poetas do mundo inteiro, seu mundo não era do reino onde figuram poemas pobres, rimas rasas e autores de orgulho cego que fazem do exercício literário uma apologia à mediocridade. Umberto era a voz do supremo, do elevado, do belo, do estético, do artístico e do sublime!

Para Eco a memória era a alma do mundo. Um mundo sem memória é um mundo sem alma. Certamente, e com toda a calma, Umberto Eco entra para a memória do mundo, enchendo de alma o sentido das coisas e as coisas dos sentidos. Vai-se Umberto, fica o eco.

Professor Robson Lima.

Sugestões de leitura:
ECO, Umberto. Os limites da Interpretação. 2ª ed. São Paulo Perspectiva, 2004. [1990]
_________. Semiótica e Filosofia da Linguagem. Lisboa, Instituto Piaget, 2001.
_________. A Estrutura Ausente: Introdução a Pesquisa Semiológica. 7ª ed. São Paulo,
Perspectiva, 2003.
_________. Diário Mínimo. São Paulo: Difel
_________. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1998
_________. Lector in Fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. 2ª
edição. São Paulo: Perspectiva, 2004.
_________. Obra Aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São
Paulo: Perspectiva, 2005.
_________. Viagem na Irrealidade Cotidiana. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
_________.A definição da arte. Trad. José Mendes Ferreira. Rio de Janeiro: Elfos; Lisboa:
Edições 70, 1968a.
______. As formas do conteúdo. Trad. Pérola de Carvalho. São Paulo: Perspectiva, 1971.
______. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.
_________. O pêndulo de Focault. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1989.