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O BRUXO DO 72 E SEU COLÍRIO NOTURNO

Este ano o grande bruxo dos versos curitibanos completará 72 anos. Muitas homenagens lhe serão feitas, tanto pela família, quanto por admiradores de seu trabalho e também por bajuladores, poetas de fim de feira que pegam carona no talento alheio.

Bem, não sou da família, embora a admire e lhe tenha amizade e respeito. Não sou um bajulador, por mais que choque. Sou, portanto, um admirador crítico do trabalho do Polaco.

Neste dia especial quero saborear alguns versos leminskianos  e gostaria de convidar meus leitores para saborearem comigo esta iguaria que depois pode ser levada para a sala de aula e fazer sucesso com os alunos.

Escolho um poema que é um colírio literário:

a noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.

Paulo Leminski

ANÁLISE CRÍTICA:

Em uma primeira análise, podemos considerar a noite como a grande protagonista e a pitonisa do poema. Na mitologia grega, a noite, Nix, assim como Hades, que reina sobre os mortos, possui um capuz que a torna invisível. Assim ela pode assistir a tudo o que acontece no universo sem ser notada.

Nix, enamorada dos bruxos e das deidades das sombras pinga uma estrela, símbolo da esperança e guia para os viajantes, no olho do “eu lírico”.

Olho é símbolo da tomada de consciência. Quando Édipo toma consciência de que matou o seu próprio pai, Laio, e se casou com sua mãe, Jocasta, ele vaza os próprios olhos. Ou seja, Édipo não quer tomar consciência a respeito da dura e brutal realidade que o acometeu.

Quando Nix pinga a esperança no olho do “eu lírico” ela tenta, com suas fantasias e sonhos de Hipnos, dar ao “eu lírico” um alento para sua ventura, ainda que parcial, já que a palavra “olho” está no singular e, portanto, apenas um dos olhos foi premiado com a esperança. O outro olho continua a contemplar a realidade nua e crua da rua, com seus roedores de sonhos. Assim, o “eu lírico”, como as Greias, possuía apenas um olho com o qual contemplava o sonho.

As Greias, na mitologia grega, irmãs das Górgonas, tiveram a oportunidade de fazer um pedido a Zeus e escolheram viver eternamente, mas esqueceram de pedir para não envelhecerem. Então, se deterioraram até que, das três irmãs, restaram apenas um dente e um olho com os quais comiam e olhavam a realidade.

Nix, uma vez contemplando o “eu lírico” com uma gota estelar de esperança, passa. Ou seja, Nix se encobre com seu capuz e o dia amanhece. A esperança, então, é fugidia e passageira como a madrugada. Ela abandona o “eu lírico” nos primeiros raios da Aurora. A noite passa, o colírio de estrela passa, passa o “eu lírico”.

Numa leitura ainda mais atenta, podemos refletir sobre a palavra “passa”. Passa também pode significar cura. Como se disséssemos: a dor já passa, ou seja, a dor já cura. Por este prisma, não é a noite (Nix) que passa, mas o mal que acometia o “eu lírico”´. Após a noite pingar uma estrela no olho do “eu lírico”, sua dor, solidão, desespero, delírio ou desesperança passam, curam-se, graças ao colírio estelar de Nix.

OUTRA ABORDAGEM:

Em outra abordagem, analisando o uso do pronome pessoal do caso oblíquo, empregado no primeiro verso, temos:

“a noite me pinga”

Ou seja, o “eu lírico”, líquido, é pingado pela noite. Isso fica evidente ao se considerar as aliterações provocadas pelas consoantes /t/p/g, simulando o gotejar. Pingado de pinga ou pingado de gota. O “eu lírico” passa a ser, então, uma gota, “estrela no olho”. Uma estrela no olho do leitor que o lê. Uma estrela no olho de quem o contempla no verso.

O fazer poético é, desta forma, um colírio de estrelas e esperanças no olho do leitor. Cada verso é uma gota e a cada colírio, um delírio que goza, rosa e passa.

O poema se torna, então, não mais verso, mas líquido que lubrifica os olhos do leitor por alguns instantes, os instantes da leitura, e que, depois, passa.

Esta passagem se dá pelo gozo, seguido pelo esquecimento do verso. Um verso perverso que resume todo o universo, mas passa, assim como Nix que com seu capuz de invisibilidade deixa na debilidade todos os seus amantes, como se não os amasse antes.

Bem, espero que esta análise possa ser uma gota leminskiana de um poeta líquido, mas nada insípido, inodoro ou incolor.

Agradeço a todos pela atenção!

Professor Robson Lima.